Posts Tagged rio de janeiro

Ladeira abaixo

Meus pais tinham amigos que moravam no Rio de Janeiro e passei a minha infância viajando para a então Cidade Maravilhosa. Tenho boas recordações dos vários passeios que fizemos na década de 70.

No início da década de 80, estudei na Escola de Marinha Mercante. Foi bem na época em que Moreira Franco entregou o governo da cidade para Leonel Brizola e seus CIEPS. A mudança inclusive do cheiro nas ruas da cidade mudou justamente neste período.

Este início da década de 80 marca outros acontecimentos importantes, como o surgimento da Social Democracia (que se mostrou não ser nem uma coisa e nem outra) e líderes importantes como Reagan e Thatcher.

Atualmente, o Rio de Janeiro não é mais o principal destino turístico dos estrangeiros em férias no Brasil, assustados com a violência nas “comunidades”.

Na verdade, sinto que a cidade perdeu a sua identidade quando deixou de ser Guanabara, a capital do país, tornando-se apenas Rio de Janeiro, capital do Estado. Quando a família imperial portuguesa ali chegou, em pouco tempo, transformou a cidade não apenas em centro de poder, mas também num pólo cultural importante. D. Pedro II tinha um apreço especial pela ciência, pela cultura e pelas artes. São Paulo superou o Rio como principal pólo cultural e artístico no país apenas durante a década de 80.

Como centro econômico e comercial, o Rio sempre atraiu migrantes particularmente do norte do país. De uma forma geral, pode ser dito que o carioca era essencialmente cordial e hospitaleiro, como eternizado no personagem do Zé Carioca, de Walt Disney. Os migrantes foram, em sua maioria, bem recebidos adaptando-se facilmente à cidade. Porém, na outra extremidade da sociedade, vimos as conspirações e a contravenção, que costumam andar onde há dinheiro. Na década de 80 era apenas o jogo do bicho, que financiava o Carnaval.

Com a perda de importância da cidade, os pobres se tornaram os miseráveis e começaram a subir os morros: os cortiços se tornaram as favelas (hoje, “comunidades”). A teia em torno do jogo do bicho foi substituída pelo tráfico, com drogas e armas, tornando-se absurdamente violenta.

Sem nenhuma ética ou controle, o dinheiro da corrupção drenou o dinheiro para as obras públicas para o bolso de uns poucos, num arremedo perverso de Zé Carioca do mal. Apesar dos royalties do petróleo, os recursos gerados na cidade não eram mais suficientes para mantê-la, dependendo de uma combalida e péssima administração pública. No Brasil, os recursos sempre aparecem depois da tragédia (embora nem sempre alcancem quem realmente depende deles).

Com o triste incêndio do Museu Nacional, resolvi inquirir sobre o mapa da fundação da cidade. As cartas de Anchieta relatam que Estácio de Sá fundeou seus navios na sombra da Ilha Grande, onde elaborou o seu plano para reconquistar a cidade dos franceses. Seu plano era simples, entrar na barra da Baía de Guanabara quando a maré estivesse enchendo, pois assim, as pequenas embarcações dos tupinambás teriam a maré contra elas. Como a maré encheu logo no início da manhã, por volta de 05:30 horas, os nativos ainda teriam o brilho do Sol em seus rostos, diminuindo também a velocidade.

Rio_1555_França_Antártica

Segundo Anchieta, o plano teve êxito absoluto e as naus portuguesas puderam aportar nas proximidades do morro Cara de Cão em seguida. Considerando todas as possibilidades náuticas e astronômicas, é provável que a fundação da cidade tenha se dado entre 07 e 08:30 horas do dia 01/03/1565. Embora não tenha realizado um cálculo completo do ajuste de hora, emprego o horário de 07:30 horas, que resulta num Ascendente em 17° de Aquário.

Sob esta perspectiva não acredito numa diminuição da violência por conta do tráfico de drogas e armas; ao contrário, tenho expectativas que ela se expanda a níveis maiores a partir de novembro de 2018. Com relação à cultura, o incêndio no Museu Nacional gerará comoção e acabarão entrando (muito atrasados) os recursos para o seu restauro. É bastante provável que surjam investimentos de outros países (França? Alemanha?) mas sem um projeto geral e inclusivo. Há teatros e outros museus em situação financeira delicada. O carioca se orgulha de sua história (e há muitas para contar)… mas os recursos para manter e preservar o seu patrimônio quaisquer que tenham sido os desvios, não chegam onde são necessários.

Sobre a falta de verbas destinadas ao museu (acervo Estadão).

A força do povo carioca está em sua pluralidade e no amor a sua terra. É preciso reconquistá-la.

Anúncios

, , ,

Deixe um comentário