Uma visão sobre o livre-arbítrio na Astrologia

Uma das polêmicas mais antigas da Astrologia é o livre-arbítrio no mapa natal.

Primeiramente há dois pontos a ser considerados, que se relacionam entre si:

  • O conceito de livre arbítrio.
  • O modus operandi da Astrologia.

Livre-arbítrio x Destino

O campo de desenvolvimento das ideias que norteiam o conceito do livre-arbítrio é a Filosofia. Embora seja anterior ao período grego da História, é neste que se desenvolveu. Várias correntes postularam princípios diferentes para a sua aplicação.

O mesmo se deu nos períodos subsequentes e os autores de períodos mais recentes pouco ou nada acrescentaram ao que já existia.

Em síntese, trata-se de delegar a um ser divino ou exterior mais ou menos poderes para decidir sobre os acontecimentos da vida humana. Ou, sob outra perspectiva, de atribuir mais ou menos poderes de decisão ao ser humano diante da Natureza, do Universo ou de um dado ser divino.

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Uma outra maneira de pensar no livre-arbítrio é tentar entender qual é de fato o grau de liberdade existente para que cada um possa se manifestar ou expressar.

A pergunta a ser respondida neste caso é se está a nossa vida predestinada a partir do nascimento ou não.

  • Se sim, quanto podemos interferir?
  • Se não, quem “escreveu” este destino?

O Iluminismo deslocou este ser divino para a periferia da Criação e, a Ciência moderna o afastou ainda mais para alguma borda ainda não descoberta do Universo. E assim, o Homem se tornou superior a Deus, uma vez que pode decidir inteiramente por si, sem contar com a interferência deste ente criador denominado Deus. De uma perspectiva distanciada, pode-se pensar que o ego precisa desesperadamente de razões para assegurar a sua importância no esquema cósmico…

Mas assim que surge um problema, este mesmo indivíduo olha para o céu em busca de auxílio: “Meu Deus, me ajude…”

O modus operandi da Astrologia

O saber astrológico foi reunido em cerca de 1700 aec, graças aos esforços de Hamurabi. Obviamente, isto implica na existência de um conhecimento anterior. Em torno de 500 aec, chegou à Grécia e apenas em 330 aec é fundada a Biblioteca de Alexandria, por onde passaram os mais importantes pensadores do Oriente Médio. Sua destruição, em cerca de 400 ec, levou à perda de manuscritos valiosos nas mais diversas áreas do conhecimento humano.

O período árabe da Astrologia foi um dos mais produtivos, de certa forma, continuando o que foi realizado no período da Escola de Alexandria. Graças a estes sábios árabes, a Astrologia ingressou na Europa e teve o seu apogeu entre os séculos XIII e XVII, embora tenha sido conceitualmente reformulada por diversas vezes.

Porém, há um grave problema que, Horst Ochman denomina de “problema de origem”: se o saber Astrológico é de fato muito anterior e precisou ser reunido ou unificado, significa que poderia ter sido deturpado ou modificado, eventualmente tornado incoerente ou inconsistente. Portanto, este saber reunido no século XVII aec não é necessariamente o saber original. E é impossível determinar o quanto dele restou para ser reunido, podendo ter sofrido diversos tipos de interferências e influências ao longo dos milênios que separam a sua origem à sua compilação (30 gerações).

E apesar da unanimidade de que a Astrologia como a conhecemos se originou nesta época da História, os astrólogos seguem os preceitos de Ptolomeu, que escreveu Tetrabiblos no século I ec. Sua enciclopédia nem sequer é a primeira da qual se tem conhecimento e ainda, não há nenhum manuscrito original completo de sua obra (as versões atualmente em circulação são o resultado de colagens feitas a partir de duas versões incompletas de sua obra e de referências encontradas em alguns outros autores). A primeira enciclopédia astrológica foi escrita por Nechepso em cerca de 700 aec. Ptolomeu é absolutamente ambíguo em sua introdução ao Tetrabiblos quando descreve como os Astros operam nos eventos da vida humana e sobre o livre-arbítrio.

Há registros de que no século VIII, em Roma, já ocorriam discussões envolvendo o livre-arbítrio a partir da determinação ou não dos astros sobre a vida do nativo. Portanto, esta polêmica não é privilégio do Cristianismo.

No século XVI, Morin de Villefranche, em Astrologia Gálica, postula o determinismo astrológico. Mas é um pastor, astrônomo e matemático quem reconduz a Astrologia aos seus trilhos originais. Johannes Kepler foi professor universitário, mas as suas despesas eram pagas através da Astrologia. Graças a ela, libertou a sua mãe por duas vezes das garras da Inquisição. O seu tratado de ótica explica o modus operandi dos planetas sobre os eventos da vida humana.

Convém apresentar três definições que passariam desapercebidas para os astrólogos contemporâneos:

  1. Aspectos são ângulos através dos quais os astros trocam suas luzes ou se veem.
  2. As órbitas dos aspectos são medidas a partir do centro da posição ocupada pelo astro no céu e não a partir de sua projeção no Zodíaco.
  3. O valor de cada órbita é uma atribuição do Astro e não do aspecto.

No que diz respeito à Astrologia, Kepler estabeleceu que as relações harmônicas (geométricas) entre os Astros e suas diversas combinações são os indicadores de eventos de diversas naturezas, dependendo do que se está estudando. Diz que, desde a criação, existe uma espécie de “memória” disparadora de eventos, baseada na geometria que os astros formam entre si com o nosso planeta ao longo do tempo.

Assim, ele não credita uma determinada ocorrência apenas a um Astro, mas uma combinação espaço-temporal tridimensional que teve o seu ponto de partida no momento da criação (do Sistema Solar). O que Kepler estava afirmando é que as posições relativas dos planetas em torno do Sol (ângulos) contem uma memória de informação.

Este tipo de “memória” é conhecida pela engenharia genética como memória topológica, a capacidade que as células reprodutoras tem de, em intervalos determinados de tempo, quando fecundadas, produzirem um novo ser a partir do embrião. Até hoje se pergunta como aquele conjunto de células sabe que é hora de formar o sistema digestório, uma orelha ou um nariz… Para todos os humanos, há um ciclo semelhante, absolutamente geométrico porque parte das meioses e mitoses da fecundação. Mas cada embrião forma um ser individual e único. Há uma memória de informação comum a todos os seres humanos e que se encontra ligada, através do DNA ao nosso Sol, fonte de toda vida em nosso planeta e, em última análise, fonte de nosso DNA também.

Para Kepler, o todo estava imerso no Um e pelo que vimos acima, a capacidade de decisão do ser humano se tornaria bastante limitada, tratando-se de uma relação entre o potencial disparado em seu nascimento e o momento em que se encontra a partir da geometria entre os Astros representada em seu mapa natal. Isso equivaleria dizer, uma relação entre o mapa natal e as direções e trânsitos, como queria Morin.

Em termos astrológicos, os Astros funcionam como ponteiros de relógios, indicadores de tempo, e não fatores de determinação. Entretanto, a semente, representada pelo mapa natal, esta sim, é um fator determinante para o sucesso ou fracasso do nativo ao longo de toda a sua vida. Morin é muito claro a este respeito, repetindo esta ideia em cada um de seus 26 volumes.

Portanto, o modus operandi da Astrologia, vista em termos contemporâneos, está relacionada à memória da informação contida nas relações geométricas entre os astros, representada no mapa natal.

A minha visão

Morin, entretanto, abordou apenas as questões astrológicas, deixando de lado qualquer outra tergiversação filosófica. Suas colocações são absolutamente racionais e lógicas.

Porém, se o indivíduo for de fato uma combinação de corpo, alma e espírito, o tal do livre-arbítrio jamais poderia estar no corpo, sujeito a todos os tipos de limitações.

Se houver mesmo um ser divino e a consciência for de fato um atributo espiritual deste ser, se houver algum livre-arbítrio, este só poderá ser encontrado no plano da consciência. O espírito se infunde no corpo por ocasião da primeira inspiração e é selada e amalgamada pela alma, ocasião em que tem o seu livre-arbítrio restringido pelas limitações oferecidas pelo seu corpo.

Postulo que a vida é que nem uma faculdade. Você a escolhe em razão de uma visão ou objetivo. Durante a faculdade, você só precisará de 70% de aproveitamento e 75% de presença em todas as matérias para se graduar. Ou seja, na vida, você pode errar 30% e se omitir 25%. Comparo carma a DP, com a vantagem que nenhum carma precisa ser cumprido imediatamente na vida seguinte.

É a consciência que faz as escolhas do que quer realizar naquela vida em particular, decidindo sem quaisquer interferências como deseja alcançar os seus objetivos. Precisa de uma família para lhe dar inicialmente o seu suporte físico (a começar pelo corpo e alimentação). Todas essas escolhas e decisões estão representadas no mapa natal.

Sob esta maneira de ver as coisas, a vida é assunto de sua inteira responsabilidade e cabe-lhe ser gestor(a) de suas próprias escolhas. As decisões que resultaram na sua vida foram tomadas quando de posse integral de seu livre-arbítrio e, com certeza, você fez as melhores escolhas possíveis.

Em resumo, sob a minha visão, o livre-arbítrio existe apenas no plano da consciência e torna-se limitado pelo corpo por ocasião do nascimento. O mapa natal representa o conjunto destas escolhas que, Morin muito apropriadamente chamou de determinações. A comparação com o período passado na faculdade tem o propósito de indicar que cabe a você gerir o seu desempenho e resultados, sem a estrita necessidade de perfeição.

A consciência só reassumirá inteiramente a posse de seu livre-arbítrio algum tempo após ter expirado pela última vez.

Nota: Postulo que o ser humano é um de tríplice natureza, composto de espírito, alma e corpo. A consciência é um atributo divino de natureza espiritual. A alma servindo de interface entre a consciência e corpo, sendo o corpo dotado dos órgãos dos sentidos. Estes últimos alimentam a consciência com informações “traduzidas” pela alma. Intuições e sonhos místicos são as maneiras da consciência “dialogar” com o corpo, através da alma.

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