Cazimi: no coração do Sol

Cazimi é uma expressão árabe que significa “no coração do Sol”.

Diz-se que quando um astro estiver nestas condições estará dignificado, sua expressão será forte e poderosa, como se estivesse sendo suportado e apoiado diretamente pelo astro-rei.

É recomendável apresentar alguns conceitos:

O Sol tem um halo exterior de cerca de 17° de raio. Por ocasião do crepúsculo matutino, a escuridão noturna começa a se desvanecer quando o Sol atinge a altura de 17° abaixo do horizonte. O mesmo ocorre inversamente por ocasião do crepúsculo vespertino, pois ainda teremos o clarão da luz do Sol até que este astro ultrapasse esta órbita de 17° abaixo do horizonte.

Um astro transitando neste halo terá a sua luminosidade e brilho diminuídos e portanto, estará enfraquecido em seu poder de manifestar a sua natureza. Diz-se que está sob os raios do Sol.

Há um segundo halo que, partindo do centro do Sol, tem uma órbita de cerca de 8,5°. Um astro transitando este halo não será visível e é considerado em combustão. O poder para manifestar a sua natureza é mínimo. Num mapa natal, costuma representar hábitos, vícios e condicionamentos.

Convém descrever ainda o que os astrólogos da Antiguidade entendiam por órbita. Quando se diz que a órbita do Sol é de 15°, referiam-se a um perímetro circular a partir do centro do Sol com raio de 15°. Da mesma maneira, hoje em dia, quando colocamos um foguete em órbita, nós o colocamos para girar em torno da Terra a uma distância constante de seu centro. Em aeronáutica, quer dizer girar em círculos em torno de um mesmo lugar.

Os astrólogos da Antiguidade entendiam que órbita de um astro corresponde a uma região circular até onde a luz de um astro teria poder, o que está na base da teoria dos aspectos.

O diagrama abaixo ilustra as órbitas para um astro ser considerado sob os raios e em combustão com o Sol:

cazimi1

Por fim, se um astro estiver em conjunção com o Sol numa órbita de 17’, correspondente ao raio médio do astro-rei, será considerado Cazimi, no coração do Sol. Como vimos acima, trata-se de uma condição de grande poder e força.

Sempre tive dificuldade de aceitar esta interpretação.

  1. A poder de um astro está associado à sua visibilidade e luminosidade. Quando Cazimi, o astro não será visível e nem terá luminosidade. Com respeito aos planetas superiores, estará oculto pelo Sol. No caso dos planetas interiores, pode tanto estar oculto pelo Sol como mostrando uma face desprovida de luminosidade em razão da sombra.
  2. Normalmente, um astro fica primeiro sob os raios do Sol, depois combusto e então, Cazimi. Ao sair da órbita, repete a sequência inversa de combustão e sob os raios do Sol. Como pode um astro ir perdendo gradualmente o seu poder à medida que transita os halos do Sol, subitamente ganhar poder para depois perdê-lo quando entrar em combustão?
  3. Todos os eclipses solares são considerados nefastos por todos os autores da Antiguidade. Num eclipse solar, é a Lua que fica Cazimi. Porque com os planetas teria de ser diferente?

Em Classical Astrology for Modern Living, de Lee Lehman, ela sugere que o conceito de Cazimi tenha surgido com Albiruni, no livro que escreveu sobre as Revoluções Solares. Entretanto, a autora diz que fragmentos de edições mais antigas deste livro apontavam Cazimi como uma debilidade e apenas nas edições seguintes ocorrendo como uma dignidade.

Tentei percorrer os mesmos passos dos astrólogos da Antiguidade, que fitavam o céu em busca de presságios. Sua visão do céu e dos acontecimentos era tridimensional, razão pela qual existem tantos aforismos associados às passagens dos planetas pelas estrelas. Por mais antigo que seja o Zodíaco, tem a finalidade de instrumento de medição, como uma régua. São os astros (Luminares e planetas) que determinam os eventos, e não os Signos do Zodíaco.

Com este pensamento em mente, voltei para o diagrama dos halos do Sol e reuni as informações abaixo:

tabela

Os passos dos planetas acima indicados são passos médios, uma vez que os astros podem ter velocidades maiores ou menores dependendo de sua posição no plano de suas órbitas.

Os ciclos sinódicos se referem ao tempo em que um planeta leva para atingir uma mesma posição em relação a uma estrela, no caso, o Sol. Os antigos não consideravam apenas a longitude zodiacal, mas sim, a sua posição real entre as estrelas, usando o ciclo de retrogradações para este fim.

Por definição, apenas o Sol percorre a Eclítica com latitude zero. As órbitas dos planetas em torno do Sol são inclinadas em relação ao plano da Eclítica, resultando nas variações de latitude como acima.

Vou tomar Marte como exemplo, cuja latitude eclítica varia de 04° 34’ N a 06° 22’ S. Com os planetas inferiores é ligeiramente diferente, uma vez que podem formar conjunção inferior e superior (entre a Terra e o Sol ou além do Sol, respectivamente).

O diagrama abaixo representa as passagens de Marte. Há três possibilidades:

  • A1 representa a passagem de Marte ao norte do disco solar. Nestas condições, Marte entra na órbita sob os raios do Sol e fica em combustão, mas não na órbita de 17’ do disco do Sol (Cazimi).
  • A2 representa a passagem de Marte sendo ocultado pelo Sol, ou seja, ficando Cazimi.
  • A3 representa a passagem de Marte ao sul do disco solar. Nestas condições, como acima, Marte entra na órbita sob os raios do Sol e fica em combustão, mas não na órbita de 17’ do disco do Sol (Cazimi).

marte cazimi1

A cada 2 anos e 50 dias, Marte estará novamente na mesma longitude do Sol (conjunção), entretanto, não necessariamente Cazimi, uma vez que pode passar abaixo ou acima do disco solar.

Como repete a mesma posição no céu em relação ao Sol a cada 79 anos, podemos afirmar que este é o intervalo de tempo para estar Cazimi novamente. E como o seu passo médio diário é de 32’, permanecerá nesta condição por aproximadamente um dia.

A mesma análise pode ser aplicada aos demais planetas superiores. Saturno, o mais lento deles, permanecerá cerca de 34 dias Cazimi, repetindo esta condição a cada 59 anos.

Há duas maneiras de Vênus e Mercúrio ficarem Cazimi: na conjunção superior e na conjunção inferior com o Sol. Para Vênus, o intervalo para cada uma delas é de 8 anos; para Mercúrio, 46 anos. Em termos práticos, podemos afirmar que Vênus e Mercúrio ficam Cazimi por duas vezes nos períodos sinódicos obtidos pelos astrólogos da Antiguidade. Como são mais rápidos, ficarão Cazimi por cerca de 15 horas.

Conclusão:

Um dos principais alicerces da interpretação astrológica se fundamenta na luz emitida pelos astros. Estes tornam-se menos visíveis à medida que se aproximam do Sol a ponto de ficarem sob os seus raios e em combustão.

Os astrólogos da Antiguidade tinham uma maneira peculiar de medir os ciclos dos astros, tomando como referência sua passagem consecutiva numa mesma região do céu tridimensionalmente quando retrógrados. Para os planetas superiores, corresponde à situação em que se encontram em seu máxima luminosidade e visibilidade.

Um astro sob os raios do sol e em combustão se encontra na situação oposta àquela por ocasião de sua retrogradação: mínima luminosidade e visibilidade.

Embora não seja possível afirmar, é razoável inferir que considerassem a situação Cazimi do mesmo modo que mediam os períodos sinódicos, no céu e não no Zodíaco. Sob esta perspectiva, um astro Cazimi torna-se uma situação muito particular e incomum, de onde pode ter partido a sua natureza de dignidade.

 

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  1. #1 by Marcos on 6 de Julho de 2014 - 18:04

    Eu tenho o Sol aos 14°30′ de Leão, com Jupiter aos 15º17′ de Leão , também , se bem entendi sua explanação tenho Jupiter em Cazimi? E já ouvi falar que este aspecto é de espetacular influencia na vida de uma pessoa…… Porem minha vida não mostra isto. Neste caso meu Jupiter esta em combustão e sem força?

    Gostar

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